terça-feira, 10 de março de 2020

Está tudo a evoluir muito depressa

Meus caros, as vossas dúvidas são as minhas. O post anterior foi ontem, esta terça o cenário está em mudança. A Universidade Clássica cancelou as aulas, a nossa ainda não - pelo menos, para mim ainda não está claro.

Eu, o vosso docente para esta cadeira, irei lá. Tenho de ir, vi demasiados filmes onde o capitão vai ao fundo com o navio. E (agora mais a sério) tenho de, no meio das precauções legítimas e do justo receio, de estabelecer um plano de trabalho, tanto individual como colectivo.

Mas vocês não se sintam obrigados. Nas próximas horas, até pode haver cancelamento oficial. Não sei. Às 23h04 de terça 10 de Março não há cancelamento obrigatório das aulas. Apenas recomendado um plano de contingência.

Acho que podemos diminuir os danos e até tirar benefícios-surpresa. Eu terei até de trabalhar mais: tutoria individual.

Gostava que formassem grupos. Que tal, decididamente, avançarmos para um projecto colectivo que será um livro?

Grupos de dois, pelo menos. Pegando num tema de edição - à sorte e/ou por escolha, tipo quem chega primeiro escolhe, quem se atrasa fica com os restos - e fazendo um capítulo sobre esse assunto.

Será um projecto de investigação. Em pares: com um autor e um editor.

Que depois trocam de papéis, noutro artigo. Um piloto e um navegador.


Temas, tipo: 
  • O novo marketing
  • Cenários de futuro
  •  O editing
  • Como vender livros na era das TVs
  • O papel do editor hoje
  • Criando uma agência literária
  • A edição online - como lucrar com ela?
  • Criando uma editora
  • A educação do gosto: que livros escolher?
  • Impossibilidade/necessidade da tradução
  • Como destruir uma editora
  • 24h na vida de uma editora

etc.


segunda-feira, 9 de março de 2020

Esta quarta HÁ aula

Nas Correntes foi falso alarme. Felizmente, a ser investigado - acho eu.

Estamos numa época conturbada. Eu, pelo menos, ando distraído. Mas vamos fazer o melhor que pudermos.

O caso Hachette/Woody Allen

Sugiro que sigam a Publishers Weekly - https://twitter.com/PublishersWkly - no Twitter. Dali, obtêm ligações para outras páginas e editores que queiram seguir. É um bom instrumento para estarmos atentos às tendências do mercado norte-americano, ainda o motor e Tiranossaurus Rex da edição mundial.
Um português bom de seguir, já foi alcunhado pela Time de 'Borges do Twitter', é o generosíssimo  José Afonso Furtado - https://twitter.com/jafurtado - um dos grandes estudiosos de edição em Portugal, eu diria que o mais erudito. O homem é uma máquina (um bibliotecário hiper-activo) a passar informação.

E, aqui, o caso da censura à publicação de um livro de Woody Allen. Eu disse censura? Outros dizem justa decisão, após um protesto de pessoal da Hachette, que recebeu solidariedade de gente em outras editoras norte-americanas.

O que vocês acham? É uma boa ou uma má decisão?







quinta-feira, 5 de março de 2020

De Pierre a Tomás

Com base nas traduções de poesia que temos visto nas últimas aulas pensei que talvez fosse interessante partilhar uma tradução que fiz durante a minha licenciatura: Pierre: A Cautionary Tale in Five Chapters and a Prologue. Pierre é um conto para crianças escrito por Maurice Sendak, podem ouvir o original aqui. A tradução que apresentei na altura foi a seguinte:

Prólogo 

Era uma vez um rapaz 
Chamado Tomás 
Que dizia apenas 
“Tanto me faz!” 
Lê a sua história, 
Meu amigo, 
E descobrirás 
Que, no seu fim, 
Uma boa moral 
Encontrarás. 

Capítulo 1 

Um dia 
A sua mãe disse, 
Quando Tomás  
Saiu da cama,  
“Bom dia, 
Querido rapaz, 
És o único  
Que me apraz.” 
Tomás disse, 
“Tanto me faz!” 

“O que queres  
Tu comer?” 
“Tanto me faz!” 
“Podes ter tudo 
O que te apetecer.” 
“Tanto me faz!” 
“Não te sentes 
Para trás.” 
“Tanto me faz!” 
“Não deites xarope 
No cabelo, Tomás!” 
“Tanto me faz!” 

“Estás a portar-te 
Como um louco.” 
“Tanto me faz!” 
“Temos que sair 
Daqui a pouco.” 
“Tanto me faz!” 
“Não queres vir, 
Meu amor?” 
“Tanto me faz!” 
“Preferes ficar 
Enrolado no cobertor?” 
“Tanto me faz!” 
Então a sua mãe 
Deixou-o além. 

Capítulo 2 

O seu pai disse-lhe, 
“Tira a cabeça 
Dessa cadeira 
Ou penduro-te 
Na chapeleira.”  
Tomás disse, 
“Tanto me faz!” 
“Pensava que 
Conseguias ver…” 
“Tanto me faz!” 
“Que tens a cabeça 
Onde os pés devias ter!” 
“Tanto me faz!” 

“Se continuas  
Virado ao contrário..” 
“Tanto me faz!” 
“Não recebes prendas 
No teu aniversário.” 
“Tanto me faz!” 
“Quem me dera 
Que pudesses entender.” 
“Tanto me faz!” 
“Não gosto nada 
De me aborrecer.” 
“Tanto me faz!” 

Então os seus pais 
Deixaram-no ficar. 
E não o levaram 
A brincar. 

Capítulo 3 

Agora, enquanto  
A noite vinha, 
Um leão esfomeado 
Apareceu na cozinha. 
E perguntou a Tomás,  
Sem o conhecer, 
Se gostaria de morrer. 
Tomás disse-lhe, 
“Tanto me faz!” 

“Não vês que te 
Posso comer?” 
“Tanto me faz!” 
“E que dentro de mim 
Te irás contorcer?” 
“Tanto me faz!” 
“E nunca mais  
Terás que te preocupar…” 
“Tanto me faz!” 
“Com um pai ou uma mãe 
Para te chatear.” 
“Tanto me faz!” 

“É só isso que 
Tens a dizer?” 
“Tanto me faz!” 
“Então, se não te importas, 
Vou-te comer.” 
“Tanto me faz!” 

E então o leão 
Comeu Tomás. 

Capítulo 4 

Ao chegar a casa 
Ao fim da tarde, 
Os seus pais foram tomados 
Por uma grande ansiedade! 
Encontraram o leão 
Doente na cama, 
Que chorava e gritava 
Que Tomás morto estava. 

Puxaram o leão 
Pelo cabelo 
E com uma cadeira 
Bateram-lhe no pelo. 
A sua mãe perguntou, 
“Onde está Tomás?” 
O leão respondeu, 
“Tanto me faz!” 
O seu pai disse, 
“Dentro dele está Tomás!” 


Capítulo 5 

Levaram para a cidade 
O malvado leão. 
E o médico deu-lhe 
Um  grande abanão. 
E quando o leão abriu 
A sua enorme boca, 
Tomás no chão caiu. 
Esfregou os olhos 
E a sua cabeça coçou 
E riu-se
Porque desta se safou. 
A sua mãe chorou, 
E abraçou-o bem perto. 
O seu pai perguntou, 
“Estás bem, certo?” 
Tomás disse, “Estou bem, tenho que admitir, 
Levem-me para casa, 
Está na hora de dormir.” 
O leão disse,  
“Se te satisfaz 
Sobe as minhas costas 
E senta-te, rapaz.” 
Olharam todos  
Para Tomás 
Que gritou, 
“Sim, satisfaz!” 

O leão levou-os até casa, 
Tão animado, 
E ficou com eles 
Como convidado. 


Hoje talvez fizesse a tradução de forma diferente mas, tal como a poesia, contos infantis podem apresentar muitas dificuldades ao tentar manter a rima e o sentido. Caso queiram, e tenham algum tempo, achei que este pudesse ser um bom ponto de partida para treinarem também as vossas revisões e traduções.

- Ana Lopes

quarta-feira, 4 de março de 2020

Feiras internacionais do livro canceladas

Já três feiras do livro internacionais foram canceladas - e o impacto económico, político, cultural arrisca-se a ser enorme. É difícil dizer se são decisões exageradas.

Bolonha é a número um do livro infantil, hoje uma indústria importante, uma espécie de subgrupo em crescendo, desde que descobrimos que gostamos que as crianças leiam. A feira de Londres e a de Leipzig estão nas dez mais importantes.

Já agora, tenhamos tele-escola: qualquer decisão implica riscos, como quando se escolhe um livro (porque se acredita nele), quando se regateia um contrato (teremos de cumprir o que a agente pede pelos direitos para português do último Harry Potter), quando se calcula o número de páginas, qualidade (e preço) do papel, capa dura ou mole, distribuição etc.

Aqui, perderíamos sempre:

  • Se o vírus (como há esperança) acalmar com a chegada do bom tempo, alguém vai ser acusado de alarmista e de ter causado estragos financeiros desnecessariamente. Nada de dúvidas, isto é um rombo numa indústria.
  • Se mantivessem as feiras e houvesse uma aceleração da pandemia, com um elevado número de mortes, choveriam acusações de sacrifícios humanos ao deus dinheiro.  

O que vale é que a Páscoa está já aí, e a indústria do livro é especialista em ressurreição.  


[Michael Kegler, agente, tradutor e promotor cultural, comenta no Twitter o cancelamento da Feira de Lepzig: «É muita pena, gente, mas é melhor assim.»]

Exercício de tradução (Summer Haiku - Edwin Morgan)

Adorei o exercício proposto pelo Ricardo Marques na última aula e também quero partilhar o resultado da minha tradução. 

Haiku de Piscina

                  P  i  r  u  e  t  a  s
 D  e  s  p  r  e  n  d  e  m
 d  a         m  a  r  g  e  m  !
                  P  o  r  r  e  t  a  s .


- Luísa Moura


terça-feira, 3 de março de 2020

Quarta 4 não há aula

Meus caros, hesitei em adiar a aula, até porque não podemos parar todas as actividades económicas e culturais por dá cá aquela palha. Todavia, as precauções com a saúde - neste caso, a vossa - prevalecem.

Como saberão, estive nas Correntes d'Escritas, o maior festival literário português. Há dias caiu a notícia de que Luís Sepúlveda terá contraído o coronavírus. Pessoalmente, ainda tenho esperanças de que seja um equívoco (a maior parte dos casos são gripes ou pneumonias simples, não o vírus da moda) mas há uma recomendação para uma quarentena de 14 dias. No meu caso, esta termina sábado

Até agora não tenho sintomas, e sinto-me apto para dar a aula. Mas quero evitar constrangimentos.

Lamento. Está a acontecer um pouco por todo o lado. Vários lançamentos, como este abaixo, estão a ser adiados.

O lado bom é que em breve haverá muitos livros sobre o assunto.


Aula 2 - visita de estudo: um lançamento

 Obrigado por terem vindo ao lançamento com entusiasmo. Terão reparado que havia uma sala em baixo, depois fiquei lá a conversar com um par ...